Seu valor é dado pelo Facebook?

     O mundo muda, graças aos avanços e à nossa capacidade de transformar nosso meio. Mas, precisamos tomar cuidado para não nos misturarmos aos avanços tecnológicos e tratarmos nossas emoções como se fosse um mero produto.

 

     Saímos de uma era de produção artesanal e entramos em uma de produção industrial. É a produção em série. É a produção fragmentada (uns colocam parafusos, outros apenas cortam, outros pintam etc), é a época das esteiras (o trabalhador fica parado e os produtos vão passando rapidamente por ele) e assim por diante.

 

     Veja bem, não estou criticando o modelo industrial. É apenas uma constatação. Contudo, a partir de tal constatação, quero refletir se não estamos querendo transformar, também, nossas emoções em série. Será que não estamos colocando-as nas esteiras de um viver industrializado e pouco pensado e refletido?

 

     Será que não estamos perdendo a característica do cultivo? Amizades, por exemplo, precisam ser cultivadas e não produzidas em série! Quando entramos no perfil de alguém, no Facebook por exemplo, vemos algo mais ou menos assim: “Maria começou uma amizade com João e mais outros 30”. Amizade? A esteira da rede social desdobra-se diante de nós e vamos, industrialmente, clicando no botão ACEITAR e vamos criando os amigos em série.

 

     As fotos são produzidas e elaboradas com os mais diversos filtros. Usam-se aplicativos ou programas específicos para afinar rosto, retirar espinhas, deixar a cintura fina, a perna grossa, esconder celulite, aumentar o seio, deixar o bumbum empinado, o abdômen trincado etc. Misericórdia! É a produção industrial da própria imagem!

 

     Porém, e a hora que se olha no espelho? Não existe um espelho com filtro. É por isso que muita gente se deprime; é por isso que muitos estão ficando escondidos nas cavernas do mundo virtual. Escondem-se e, a exemplo da alegoria da caverna – de Platão - , ficam apenas contemplando as sombras do que é, de fato, a vida. Criam um mundo à parte. Isolam-se e acreditam que seus problemas estão resolvidos. Criam sua própria “Terra do Nunca” e acreditam nunca envelhecer, engordar e tantos outros padrões estipulados e determinados. Jogam o pozinho de “pirlim pim pim” e ao passo que rugas desaparecem,  músculos aparecem!

 

     A autoestima é medida pelo número de curtidas que recebem, isto é, pelas técnicas que conseguiram empregar nas fotos e não pelo valor que se tem enquanto pessoa. As curtidas enaltecem o quanto se deve fugir de quem se é, o quanto se deve negar as próprias características e esconder-se ainda mais na caverna virtual.

 

     Quais são as fotos que estamparão o álbum do final de semana? Aquelas com copos à mão e sorrisos nos lábios ou a discussão por causa da carne que queimou ou a briga por causa do estilo de música que o primo colocou para embalar o almoço em família? É evidente que será a primeira! E, alguns desavisados, interpretarão que só a família dos outros é que vivem bem, em paz e harmonia. Considerará que sua família não lhe proporciona momentos felizes. Os casais colocarão a foto que tiraram no barzinho, com rostinho colado ou do momento em que brigaram feio por causa de ciúmes?

 

     As redes sociais estão aí e são uma realidade. Não estou dizendo que elas são ruins, claro que não! Contudo, precisamos ter uma postura e um senso crítico enormes diante delas. Caso contrário, inverteremos tudo e consideraremos que a nossa vida real e concreta é uma tremenda infelicidade. E veremos uma cena absolutamente contraditória acontecer: um jovem, por exemplo, enfiado em seu quarto, teclando com muitas “gatinhas” e fazendo juras de amor, com a foto do perfil alterada com incontáveis filtros. Na sala, sua mãe assiste à novela. O jovem, então, grita para sua mãe: “Afff, mãe, abaixa essa TV. Credo, não sei como a senhora consegue ter paciência e assistir isso aí como se fosse verdade”. E volta a teclar com suas gatinhas, a partir de suas fotos alteradas e características produzidas e maquiadas. E ele não percebe que se tornou o próprio roteirista de uma vida falsa e superficial. Pense nisso! Forte abraço: André Massolini 


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